A solidão de estar sempre acompanhada no puerpério

10 de setembro de 2026

A casa está cheia, mas você se sente sozinha

O quarto tem gente entrando e saindo o dia inteiro. A sogra passa para ajudar, a mãe liga de manhã e novamente à tarde, o grupo de mensagens das amigas não para de mandar coraçõezinhos. Sempre tem alguém perguntando como você está. Ainda assim, no meio de toda essa movimentação, pode surgir uma sensação difícil de explicar: uma solidão que parece não combinar com a cena, afinal, talvez você nunca tenha estado tão acompanhada.

É uma solidão difícil de admitir porque pode vir acompanhada de uma sensação de ingratidão. Como sentir falta de companhia quando a casa recebe visitas o tempo todo? Como dizer que está sozinha se o marido está ao seu lado na cama, sua mãe está lavando a louça na cozinha e o bebê está agora mesmo no seu colo?

A conta parece não fechar. Por isso, muitas mulheres acabam guardando essa sensação para si, imaginando que há alguma coisa errada com elas. No entanto, sentir-se solitária durante o puerpério é algo bastante comum.

Essa solidão tem uma característica particular: muitas vezes, ela aparece mesmo quando há pessoas por perto. O que pode estar faltando é alguém que consiga enxergar a mulher para além do bebê. É sobre essa diferença que este texto quer falar.

Uma solidão que não tem cara de solidão

Quando pensamos em solidão, geralmente imaginamos uma casa vazia, poucos contatos e a ausência de pessoas. No puerpério, porém, pode acontecer justamente o contrário. A mulher está cercada, recebe visitas, conversa com familiares e amigos e, ainda assim, sente que está vivendo tudo isso de uma maneira muito solitária.

As visitas chegam, mas quase sempre chegam por causa do bebê. Perguntam sobre o peso, a mamada, o sono. Olham para a mãe por educação e logo voltam a atenção para o berço. Poucas pessoas perguntam como foi o parto de verdade, o que doeu, o que assustou ou como ela está vivendo tudo aquilo.

Às vezes, ninguém pergunta se ela está conseguindo comer direito, se tem chorado mais do que gostaria ou se ainda se reconhece diante do espelho.

O parceiro pode estar presente e, muitas vezes, estar genuinamente tentando ajudar. Ainda assim, ele volta ao trabalho, consegue dormir a noite inteira quando ela não consegue e vive o puerpério de uma maneira diferente. As mudanças acontecem diretamente no corpo e na cabeça dela, e essa diferença de experiência pode fazer com que a presença física não seja suficiente para que ela se sinta verdadeiramente acompanhada.

Há ainda aqueles momentos de solidão que parecem pertencer a outro mundo: duas da manhã, a casa inteira dormindo e ela acordada com o bebê no colo, tentando entender por que ele chora, por que não consegue descobrir o que fazer e por que ninguém havia contado que poderia ser assim.

Por que a atenção de todos se volta para o bebê

Existe uma explicação simples, embora pouco falada, para parte dessa experiência. Quando um filho nasce, a atenção da família se volta naturalmente para aquela criança. Ela é pequena, frágil, precisa de cuidados constantes e desperta muitas perguntas.

A mãe, por outro lado, pode parecer bem aos olhos de quem chega para visitá-la. Está de pé, está cuidando do bebê, está funcionando. E, muitas vezes, funcionar acaba sendo confundido com estar bem.

Só que, enquanto isso, o corpo dela acabou de passar por uma das maiores transformações fisiológicas possíveis. Os hormônios estão sofrendo grandes alterações, o sono está fragmentado há semanas e sua própria identidade está sendo reorganizada ao mesmo tempo em que ela aprende a cuidar de um recém-nascido.

Grande parte disso não aparece em uma visita de trinta minutos. O que as pessoas enxergam é uma mulher de pé, com o filho no colo, talvez até sorrindo para a câmera do celular de quem veio conhecê-lo.

Talvez esteja aí uma das raízes mais profundas da solidão no puerpério. A rede de apoio existe e o cuidado que ela oferece é real, mas muitas vezes está concentrado no bebê. Quem cuida do bebê também precisa ser cuidado.

Por que ouvir “pode contar comigo” nem sempre traz alívio

A maioria das mulheres tem, sim, alguém que diz: “Pode contar comigo”. Na maior parte das vezes, essa frase é sincera. Ainda assim, ela nem sempre produz o alívio que poderia.

Isso acontece porque uma oferta tão aberta acaba exigindo que a própria mulher descubra do que precisa, consiga colocar essa necessidade em palavras e, depois, tenha disposição para pedir. No estado em que muitas mulheres se encontram no puerpério — exaustas, com o corpo dolorido e a cabeça ocupada por inúmeras preocupações — esse esforço pode ser grande demais.

Assim, “pode contar comigo” pode acabar se transformando em mais uma coisa para administrar, quando o que ela precisava era justamente de alguém que ajudasse a diminuir suas responsabilidades.

Também existe uma espécie de solidão na linguagem. As amigas que ainda não têm filhos talvez não consigam compreender inteiramente o que está sendo vivido. Já aquelas que têm filhos podem ter normalizado tanto as próprias experiências que respondem com um “é assim mesmo, passa”. Embora a intenção possa ser boa, essa resposta muitas vezes encerra a conversa justamente quando a mulher precisava encontrar espaço para falar.

E existe ainda uma forma mais silenciosa de solidão: aquela que vem acompanhada de vergonha. A mulher ama o filho, e isso não está em dúvida. Ao mesmo tempo, pode experimentar uma solidão profunda dentro da própria casa. Como essas duas experiências parecem difíceis de conciliar, muitas preferem não contar a ninguém — às vezes, nem sequer admitir para si mesmas — o tamanho do que estão sentindo.

O que muda quando essa solidão é nomeada

Dar um nome ao que estamos vivendo não faz a solidão desaparecer, mas pode mudar a maneira como nos relacionamos com ela.

Enquanto essa sensação permanece sem nome, é comum interpretá-la como sinal de que alguma coisa está errada com a própria maternidade ou com a mulher que a vive. Quando conseguimos descrevê-la melhor, ela deixa de parecer uma prova de fracasso e passa a ser compreendida dentro de um contexto bastante concreto: depois do nascimento do bebê, a atenção de todos se concentra nele, enquanto poucas pessoas lembram de olhar para quem está cuidando.

A partir daí, surge uma pergunta diferente. Em vez de pensar apenas “por que eu não consigo ser feliz com tanta gente por perto?”, talvez seja mais útil perguntar: “De que tipo de presença eu realmente preciso neste momento?”

A resposta para essa segunda pergunta pode abrir caminhos que a primeira não consegue oferecer.

Por onde começar

Não existe uma solução rápida para uma solidão que também está relacionada à maneira como nossa cultura costuma enxergar o puerpério. Ainda assim, existem algumas possibilidades que podem ajudar, sem a expectativa de que qualquer uma delas resolva tudo sozinha.

Uma delas é tentar ser mais específica ao pedir ajuda, em vez de esperar que alguém consiga adivinhar o que você precisa. Em vez de dizer apenas “preciso de ajuda”, pode ser mais fácil para a outra pessoa compreender quando você diz algo como: “Eu gostaria que você ficasse comigo enquanto eu tomo banho”. Um pedido concreto facilita a participação de quem quer ajudar.

Outra possibilidade é escolher, dentro da rede que você já tem, uma ou duas pessoas com quem possa falar sobre o que realmente está sentindo, sem precisar filtrar tudo ou encontrar as palavras perfeitas. Não é necessário que todas as pessoas ao seu redor compreendam profundamente o que você está vivendo. Ter alguém que saiba escutar de verdade já pode fazer diferença.

Também pode ser importante pedir, quando possível, uma presença que não esteja voltada exclusivamente para o bebê. Alguém que pergunte como você está e realmente espere pela resposta, em vez de perguntar apenas como o bebê está e passar imediatamente para o próximo assunto. Você pode dizer isso claramente, sem constrangimento. Afinal, muitas vezes é justamente esse tipo de cuidado que está faltando.

Nada disso significa acrescentar mais tarefas à sua rotina. Pelo contrário. Trata-se de usar a pouca energia disponível para fazer pedidos mais específicos, que tenham maior possibilidade de trazer uma companhia verdadeiramente acolhedora, em vez de gastá-la tentando não incomodar ninguém.

Se quiser entender melhor como esse acompanhamento funciona nessa fase, escrevi sobre isso na página sobre crises na maternidade. E, se a sensação de estar sempre revisando o próprio comportamento também lhe for familiar, este outro texto sobre por que a ansiedade recorrente raramente é sobre o presente pode ajudar a compreender uma peça relacionada dessa mesma engrenagem.

Se isso soa familiar

Muitas mulheres chegam ao consultório sem conseguir nomear exatamente o que estão sentindo durante o puerpério. Sabem apenas que alguma coisa está pesando mais do que deveria, mesmo com tanta gente ao redor.

Encontrar palavras para essa experiência já pode ser um começo. Se alguma coisa deste texto lhe pareceu familiar, podemos conversar sobre isso.

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